O direito de sonhar e delirar

March 12, 2023

O direito de sonhar e delirar.

por Eduardo Galeano.

Que tal se delirarmos por um tempinho
Que tal fixarmos nossos olhos mais além da infâmia
Para imaginar outro mundo possível?

O ar estará mais limpo de todo o veneno que

Não provenha dos medos humanos e das humanas paixões.

Nas ruas, os carros serão esmagados pelos cães.

As pessoas não serão dirigidas pelos carros

Nem serão programadas pelo computador.

Nem serão compradas pelos supermercados

Nem serão assistidas pela TV,

A TV deixará de ser o membro mais importante da família,

Será tratada como um ferro de passar roupa

Ou uma máquina de lavar.

Será incorporado aos códigos penais

O crime da estupidez para aqueles que a cometem

Por viver só para ter o que ganhar

Ao invés de viver simplesmente

Como canta o pássaro em saber que canta

E como brinca a criança sem saber que brinca.

Em nenhum país serão presos os jovens
Que se recusem ao serviço militar
Senão aqueles que queiram servi-lo.

Ninguém viverá para trabalhar.

Mas todos trabalharemos para viver.

Os economistas não chamarão mais

De nível de vida o nível de consumo

E nem chamarão a qualidade de vida

A quantidade de coisas.

Os cozinheiros não mais acreditarão

que as lagostas gostam de ser fervidas vivas.

Os historiadores não acreditarão que os países adoram ser invadidos.

Os políticos não acreditarão que os pobres

Se encantam em comer promessas.

A solenidade deixará de acreditar que é uma virtude,

E ninguém, ninguém levará a sério alguém que não seja capaz de rir de si mesmo.

A morte e o dinheiro perderão seus mágicos poderes

E nem por falecimento e nem por fortuna

Se tornará o canalha em virtuoso cavalheiro.

A comida não será uma mercadoria

Nem a comunicação um negócio

Porque a comida e a comunicação são direitos humanos.

Ninguém morrerá de fome

Porque ninguém morrerá de indigestão.

As crianças de rua não serão tratadas como se fossem lixo

Porque não existirão crianças de rua.

As crianças ricas não serão como se fossem dinheiro

Porque não haverá crianças ricas.

A educação não será privilégio daqueles que podem pagá-la
E a polícia não será a maldição daqueles que podem comprá-la
A justiça e a liberdade, irmãs siamesas
Condenadas a viver separadas
Voltarão a juntar-se, bem agarradinhas,
Costas com costas.

Na Argentina, as loucas da Plaza de Mayo

Serão um exemplo de saúde mental

Porque elas se negaram a esquecer

Os tempos da amnésia obrigatória.

A Santa Madre Igreja corrigirá

Algumas erratas das Taboas de Moisés,

E o sexto mandamento mandará festejar o corpo.

A Igreja ditará outro mandamento que Deus havia esquecido:

“Amarás a natureza, da qual fazes parte”

Serão reflorestados os desertos do mundo

E os desertos da alma

Os desesperados serão esperados

E os perdidos serão encontrados

Porque eles são os que se desesperaram por muito esperar

E eles se perderam por tanto buscar.

Seremos compatriotas e contemporâneos
De todos o que tenham
A vontade de beleza e vontade de justiça
Tenham nascido quando tenham nascido
Tenham vivido onde tenham vivido
Sem importarem nem um pouquinho
As fronteiras do mapa e do tempo.

Seremos imperfeitos
Porque a perfeição continuará sendo o aborrecido privilégios dos deuses
Mas neste mundo, trapalhão e fodido,
Seremos capazes
De viver cada dia como se fosse o primeiro
E cada noite como se fosse a última.

Estamos na Era de Aquário!

Aprenda sobre você e inspire a sua tribo.

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